Você sabe o que causa o SIBO? Depois de anos que você vem sofrendo com estufamento, gases, diarreia ou constipação sem explicação, receber o diagnóstico de SIBO costuma trazer um alívio genuíno.
Finalmente tem um nome para o que você está sentindo.
E logo em seguida vem a pergunta mais natural do mundo:
De onde veio isso?
Essa pergunta é mais importante do que parece. Entender de onde veio o SIBO é o que define quais estratégias médicas e nutricionais serão as mais eficientes para o seu caso.
O SIBO não surge do nada. Ele é sempre a consequência de algo que comprometeu o equilíbrio do seu sistema digestivo.
Em muitos casos, esse fator pode ser tratado ou corrigido. Em outros, o objetivo passa a ser o controle, não a eliminação da causa.
Por isso, identificar o que gerou o supercrescimento é parte central da abordagem.
É o que orienta as decisões clínicas e define o que você pode esperar do tratamento.
O que causa o SIBO no intestino delgado: onde quase tudo é absorvido
O intestino delgado é a parte do trato digestivo responsável por absorver quase tudo que você come.
Aminoácidos, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais passam por aqui antes de chegar à corrente sanguínea.
Ele tem três segmentos: duodeno, jejuno e íleo. Cada um com funções específicas, mas todos trabalhando em conjunto como uma linha de absorção contínua.
Para funcionar bem, essa região precisa de um ambiente controlado.
Diferente do intestino grosso, onde trilhões de bactérias vivem naturalmente, o intestino delgado deve ter uma população bacteriana muito pequena.
Menos de mil bactérias por mililitro de conteúdo intestinal é o que se considera normal.
Quando esse equilíbrio se rompe e as bactérias se proliferam nessa região, temos o SIBO.
Elas passam a fermentar os carboidratos antes que sejam absorvidos, produzindo excesso de gás hidrogênio.
Por que o intestino delgado consegue manter esse controle?
Não é por acaso. Existe um conjunto de mecanismos que trabalha em harmônia para impedir o supercrescimento bacteriano nessa região.
Eles são distribuídos ao longo de todo o trato digestivo, do começo ao fim. Quando qualquer um falha, o ambiente do intestino delgado muda.
E o SIBO é a consequência disso.
O processo começa na boca

Mastigação: a primeira etapa da digestão
A digestão começa antes mesmo de o alimento chegar ao estômago. A mastigacão adequada quebra mecanicamente o bolo alimentar e mistura-o à saliva, que já contém enzimas digestivas.
Quando a mastigacão é rápida ou incompleta, pedaços maiores chegam ao estômago exigindo mais trabalho para serem processados. Isso sobrecarrega todas as etapas seguintes.
Parece simples, mas o impacto é real. Uma digestão que começa mal, chega comprometida ao intestino delgado.
A barreira do estômago
O ácido cloridrico: muito mais do que digestão de proteínas
O estômago produz ácido cloridrico, e esse ácido cumpre várias funções ao mesmo tempo.
A primeira é a digestão das proteínas. Sem acidez adequada, as proteínas não são quebradas corretamente desde o início do processo.
A segunda função é ser uma barreira química real.
Os microrganismos que chegam junto com a comida encontram no ácido gástrico um ambiente hostil, onde a grande maioria não sobrevive.
É essa barreira que impede que eles avancem para o intestino delgado.
A terceira função é menos conhecida e igualmente importante.
O ácido estomacal sinaliza para o pâncreas liberar enzimas digestivas. para a vesícula liberar bile, além de estimular a motilidade intestinal. Quando a acidez está baixa, essa cadeia de sinais é perturbada.
Hipocloridria causada por H. pylori, pelo uso prolongado de inibidores de bomba de prótons, por gastrite atrófica ou por deficiência de zinco compromete esse sistema inteiro.
Mais microrganismos passam pela barreira gástrica e chegam ao intestino delgado.
As secreções do pâncreas e da vesícula
Enzimas e sais biliares: digestão e proteção
Logo após sair do estômago, o bolo alimentar entra no duodeno, o qual recebe as enzimas pancreáticas e os sais biliares produzidos pelo fígado e armazenados na vesícula biliar.
Essas substâncias completam a digestão dos nutrientes e têm ação bacteriostática, ou seja, inibem o crescimento de determinados microrganismos no intestino delgado.
Quando essa secreção está reduzida, como na pancreatite crônica, na insuficiência pancreática ou em doenças hepáticas crônicas, mais uma linha de proteção fica comprometida.
O ritmo do intestino delgado
O complexo motor migratório: a varredura do intestino
Entre as refeições, e principalmente durante o sono, o intestino delgado tem um padrão rítmico de contrações chamado complexo motor migratório.
Pense nele como uma varredura periódica.
Uma onda que percorre o intestino delgado de cima para baixo, empurrando todo o conteúdo residual em direção ao intestino grosso.
Essa varredura não deixa material estagnado e impede que as bactérias se multipliquem.
Quando a motilidade está comprometida, esse ritmo é interrompido. As bactérias têm mais tempo, mais espaço e mais substrato para crescer.
Diabetes mal controlado, hipotireoidismo, uso de opióides, estresse crônico, síndrome do intestino irritável e certas cirurgias abdominais são condições que comprometem esse ritmo.
Em todos esses casos, o risco de SIBO aumenta, e o risco de recidiva após o tratamento também.
A fronteira com o intestino grosso
A válvula ileocecal
A válvula ileocecal é a estrutura que separa o intestino delgado do intestino grosso. Ela funciona como uma comporta que impede o refluxo das bactérias abundantes do cólon para o intestino delgado.
Quando essa válvula é comprometida, por cirurgias, doenças inflamatórias intestinais ou alterações anatômicas, bactérias do intestino grosso encontram caminho livre para o intestino delgado.
E o intestino delgado não está preparado para receber essa quantidade.
A defesa imunológica local
A imunoglobulina A secretória
O intestino delgado também tem seu próprio sistema de defesa imunológica.
A imunoglobulina A secretória, produzida localmente, age sobre a adesão bacteriana à mucosa e é uma das últimas linhas de proteção contra o supercrescimento.
Deficiências imunológicas, sejam primárias ou adquiridas, reduzem essa defesa.
Um intestino sem defesa imunológica local eficiente é um intestino mais vulnerável a qualquer desequilíbrio que venha das etapas anteriores.
Visualizando o sistema completo
A tabela abaixo resume as etapas do processo digestivo, os mecanismos de proteção de cada uma e as condições que os comprometem. O objetivo é mostrar que o SIBO raramente tem uma única causa.
| Etapa comprometida | Condições e fatores associados |
| Mastigação inadequada | Alimentação rápida, ausência de mastigacão adequada |
| Ácido cloridrico reduzido | H. pylori, IBPs crônicos, gastrite atrófica, deficiência de zinco |
| Enzimas e bile reduzidas | Pancreatite crônica, insuficiência pancreática, doença hepática |
| Motilidade comprometida | SII, diabetes, hipotireoidismo, opioides, estresse crônico, cirurgias |
| Válvula ileocecal | Cirurgias, doenças inflamatórias intestinais, alterações anatômicas |
| Imunidade intestinal | Deficiência de IgA, imunodepressão, doenças autoimunes |
Por que o SIBO recidiva?
Essa é a pergunta que mais frustra quem já fez tratamento e viu os sintomas retornarem.
O tratamento antimicrobiano reduz a população bacteriana no intestino delgado. Mas se o mecanismo que permitiu o supercrescimento continua comprometido, as bactérias retornam.
Um paciente com dismotilidade não tratada vai recidivar. Um paciente com hipocloridria mantida por IBPs que nunca foram revistos vai recidivar.
Tratar o SIBO sem investigar a causa é tratar pela metade.
A visão clínica do Dr. Gustavo Solano
Na minha prática, buscar a causa do SIBO é a etapa mais importante de todo o tratamento e acompanhamento.
É o que define sucesso no longo prazo.
Toda vez que atendo um paciente com SIBO, faço uma avaliação sistemática de cada etapa do processo digestivo.
Qual mecanismo falhou? O que pode ser corrigido ou manejado?
Sem essa investigação, o tratamento é incompleto. E o paciente, fica frustrado.
Conclusão
O SIBO não acontece do nada. Ele é a consequência de um sistema que perdeu o equilíbrio em alguma etapa, da boca ao intestino.
Mastigação, acidez gástrica, enzimas pancreáticas, motilidade, válvula ileocecal, imunidade local, cada um protege o intestino delgado à sua forma. Quando qualquer um falha, os outros sentem.
Se você já tratou SIBO e os sintomas voltaram, ou tem fatores de risco que nunca foram investigados com profundidade, o próximo passo é uma avaliação que vá além do sintoma.
Atendo presencialmente em Ribeirão Preto e por telemedicina em todo o Brasil e exterior.
Perguntas frequentes sobre as causas do SIBO
O estresse pode causar SIBO?
O estresse crônico não causa SIBO diretamente, mas age sobre o sistema nervoso entérico de forma real e mensurável. Quando o eixo intestino-cérebro está perturbado de forma persistente, o complexo motor migratório pode perder ritmo. Um intestino que não realiza sua varredura adequadamente é um intestino que favorece o supercrescimento bacteriano.
O uso de omeprazol pode causar SIBO?
O uso prolongado de inibidores de bomba de prótons reduz a produção de ácido cloridrico, que é uma das principais barreiras contra a proliferação bacteriana no intestino delgado. Estudos mostram maior prevalência de SIBO em pacientes em uso crônico dessas medicações. Isso não significa que o IBP deva ser suspenso sem orientação médica, mas indica que o uso precisa ser revisado regularmente com o profissional que acompanha o caso.
Quem tem SII tem mais risco de desenvolver SIBO?
Sim. A dismotilidade intestinal presente em muitos casos de SII pode comprometer o complexo motor migratório e criar condições favoráveis ao supercrescimento. Em alguns pacientes, o que parece ser apenas SII tem o SIBO como parte do quadro. O Teste Respiratório do Hidrogênio e Metano Expirado é o método indicado para investigar essa associação com objetividade.
Cirurgia de estômago pode causar SIBO?
Sim. Cirurgias que alteram a anatomia do trato digestivo, como o bypass gástrico em Y de Roux, predispoem ao SIBO por múltiplos mecanismos: redução da acidez gástrica, alterações na motilidade e criação de alcas onde o conteúdo intestinal pode estagnar. Cada um desses fatores, isolado ou combinado, aumenta o risco.
Diabetes está relacionada ao SIBO?
Sim. O diabetes, especialmente quando mal controlado, pode causar neuropatia autonômica que afeta diretamente a motilidade intestinal. Quando o sistema nervoso que coordena o complexo motor migratório perde eficiência, o risco de supercrescimento aumenta. É um dos motivos pelos quais, sintomas digestivos crônicos são comuns em pacientes diabéticos e frequentemente subinvestigados.

CRM 106353 SP / RQE 55075 CRM SP
Médico especialista em Clínica Médica e Nutrologia, palestrante e diretor da Clínica Solano
Referências
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