H pylori tratamento é uma das dúvidas mais comuns na gastroenterologia atual. O diagnóstico é feito, o tratamento é prescrito, o paciente segue o esquema. E depois?
Para muitas pessoas, os sintomas melhoram parcialmente, mas não desaparecem por completo. Ou retornam semanas após o fim do tratamento.
O que falta nessa equação não é a medicação em si.
É o entendimento de que erradicar a bactéria é apenas uma parte do processo.
O estômago e o intestino precisam de tempo e cuidado para se recuperar.
Este artigo explica o que é o H. pylori, como ele afeta o trato digestivo, quais são os métodos de diagnóstico e tratamento atualizados e, principalmente, o que fazer depois da erradicação para que a recuperação seja completa.
O que é o H pylori?

A Helicobacter pylori é uma bactéria gram-negativa de formato espiralado que coloniza a mucosa gástrica.
Ela desenvolveu mecanismos sofisticados para sobreviver no ambiente ácido do estômago, incluindo a produção de urease, enzima que neutraliza o ácido ao seu redor, criando um microambiente de pH mais elevado que lhe favorece.
A prevalência do H pylori é alta no Brasil.
Estima-se que mais de 60% da população adulta brasileira já tenha sido exposta à bactéria em algum momento da vida, com taxas mais elevadas em regiões de menor saneamento.
A transmissão ocorre principalmente por via oral-oral e fecal-oral.
A presença da bactéria, por si só, não significa doença imediata.
A maioria das pessoas infectadas permanece assintomática por anos.
A forma como a infecção evolui depende de fatores como a cepa bacteriana, as características genéticas do hospedeiro e as condições do terreno gástrico.
Mas isso não significa que a infecção possa ser ignorada – mesmo sem sintomas, o H. pylori pode provocar alterações progressivas na mucosa gástrica ao longo do tempo.
Quais doenças o H. pylori pode causar?

Quando a infecção evolui de forma ativa, o H. pylori pode provocar alterações progressivas na mucosa gástrica. As mais documentadas são:
- Gastrite aguda e crônica: inflamação da mucosa do estômago, que pode evoluir para gastrite atrófica com redução permanente das células secretoras
- Úlcera péptica: tanto duodenal quanto gástrica, com mecanismos distintos dependendo da localização
- Metaplasia intestinal: substituição progressiva do epitélio gástrico normal por células com características intestinais, considerada lesão pré-neoplásica
- Linfoma MALT gástrico: tipo de linfoma genuínamente associado à infecção crônica pelo H. pylori
- Adenocarcinoma gástrico: o H. pylori é classificado pela OMS como carcinogênio de classe I, sendo responsável por parcela significativa dos casos de câncer de estômago no mundo
Além das manifestações gástricas, a infecção ativa pelo H. pylori tem sido associada a dispepsia funcional, deficiência de ferro, deficiência de vitamina B12, plaquetopenia imune e alterações na microbiota intestinal, entre outras.
Quais são os sintomas do H. pylori?
Boa parte das infecções por H. pylori é assintomática. Quando os sintomas aparecem, os mais comuns incluem:
- Dor ou desconforto no epigástrio, frequentemente referida como sensação de ardência na boca do estômago
- Sensação de empachamento após comer e digestão lenta
- Náuseas, especialmente pela manhã ou após refeições
- Arrotos frequentes
- Perda de apetite
- Estufamento abdominal
- Em casos de úlcera, dor em queimação que piora com jejum e melhora com alimentos
Um ponto importante que passa despercebido na clínica – o H. pylori pode contribuir para a hipocloridria, falta de ácido no estômago.
A bactéria pode danificar as células parietais do estômago e reduzir a produção de ácido clorídrico.
Em alguns pacientes, os sintomas que parecem ser de excesso de ácido são, na verdade, de deficiência ácida provocada pela própria infecção.
Como é feito o diagnóstico do H. pylori?
O diagnóstico pode ser realizado por métodos invasivos, que dependem de endoscopia, e por métodos não invasivos.
A escolha depende da indicação clínica e do contexto de cada paciente.
| Método | Tipo | Observação |
| Teste da urease (endoscopia) | Invasivo | Alta sensibilidade |
| Histologia (biópsia) | Invasivo | Padrão ouro |
| Teste do antigênio fecal | Não invasivo | Controle pós-tratamento |
| Teste respiratório da uréia | Não invasivo | Referência internacional |
| Sorologia (IgG) | Não invasivo | Não confirma erradicação |
Uma observação importante.
O teste sorológico, que detecta anticorpos IgG contra o H. pylori no sangue, não deve ser usado para confirmar a erradicação.
Os anticorpos podem permanecer detectáveis por meses ou anos após a erradicação.
Para controle pós-tratamento, o teste do antigênio fecal e o teste respiratório da uréia são os métodos de referência.
Quem deve ser tratado? H pylori tratamento: como funciona na prática?

A questão de quem deve tratar evoluiu nos últimos anos. O ACG 2024 e o V Consenso Brasileiro de 2025 caminham na direção do “test and treat”, na maioria dos pacientes com diagnóstico confirmado, a erradicação é recomendada, independentemente da presença de sintomas.
Os benefícios incluem prevenção de progressão para lesões pré-neoplásicas, redução do risco de câncer gástrico a longo prazo e interrupção da cadeia de transmissão.
A exceção que merece discussão individualizada é o paciente completamente assintomático, sem fatores de risco, sem alterações endoscópicas e sem história familiar de câncer gástrico.
Nesse cenário mais restrito, alguns consensos reconhecem que a decisão pode ser compartilhada com o paciente.
Fora dessa exceção, a orientação atual é tratar.
O tratamento da infecção por H. pylori envolve obrigatoriamente a combinação de antibióticos com agentes que suprimem a acidez gástrica.
A razão é que os antibióticos funcionam mais adequadamente quando o pH gástrico está suficientemente elevado.
Nenhum antibiótico único, usado isoladamente, é suficiente para erradicar o H. pylori.
Os esquemas terapêuticos combinam dois ou mais antibióticos, associados a inibidores de bomba de prótons, por períodos que variam de 10 a 14 dias, conforme o protocolo adotado.
O V Consenso Brasileiro sobre H. pylori, apresentado na Semana Brasileira do Aparelho Digestivo em novembro de 2025, reforçou três estratégias para otimizar as taxas de erradicação:
A adição de bismuto para superar resistência antimicrobiana, o aumento da supressão ácida com doses maiores ou bloqueadores ácidos de nova geração e o aumento da dose de amoxicilina em esquemas selecionados.
A resistência antimicrobiana é uma preocupação crescente.
Taxas de resistência à claritromicina e ao metronidazol estão em elevação no Brasil e no mundo.
Isso reforça a importância de seguir esquemas atualizados e de confirmar a erradicação após o tratamento, o que nem sempre é feito na prática.
E quando o tratamento falha?
Quando o primeiro esquema não resulta em erradicação, um segundo ciclo com esquema diferente pode ser indicado.
A definição do próximo passo depende dos antibióticos utilizados anteriormente e, idealmente, do perfil de resistência da cepa.
A adesão ao tratamento é determinante.
A bactéria não é erradicada se o esquema for interrompido antes do prazo, mesmo que os sintomas melhorem.
Essa informação precisa ser transmitida com clareza ao paciente.
Abordagens naturais: o que a ciência diz?
É uma das perguntas que mais chegam ao consultório. E merece uma resposta honesta.
Não existe abordagem natural capaz de erradicar o H. pylori de forma equivalente ao tratamento farmacológico.
Isso não é opinião, é o que a evidência científica atual mostra.
Manter a infecção ativa na esperança de resolvê-la apenas com dieta ou compostos naturais implica risco real de progressão das lesões gástricas.
Isso dito, algumas substâncias têm evidência como adjuvantes ao tratamento farmacológico.
Certas cepas de probioticos, como Lactobacillus reuteri e Saccharomyces boulardii, mostraram em estudos a capacidade de reduzir efeitos adversos dos antibióticos e contribuir modestamente para as taxas de erradicação.
Esses dados foram reconhecidos no novo consenso brasileiro de 2025, com a ressalva de que mais estudos são necessários para definir cepa, dose e momento ideais.
A alimentação tem papel de suporte, não de erradicação.
Evitar álcool, cafeína, alimentos condimentados e ultraprocessados durante o tratamento ajuda a reduzir a inflamação da mucosa gástrica e favorece a recuperação.
Mas não substitui o tratamento médico indicado.
O que não pode faltar depois do tratamento
Erradicar o H. pylori é o primeiro passo. O que acontece depois determina se o paciente vai ou não ter recuperação completa.
O estômago que passou por inflamação crônica causada pela bactéria frequentemente apresenta alterações que persistem após a erradicação.
Hipocloridria residual por dano às células parietais, disbiose intestinal induzida pelos antibióticos do esquema de erradicação e deficiências nutricionais instaladas durante anos de infecção ativa, são situações que precisam ser avaliadas e tratadas.
Cabe ao médico, investigar se há hipocloridria pós-erradicação s qual pode favorecer novos supercrescimentos bacterianos e perpetuar sintomas digestivos mesmo sem bactéria ativa.
A restauração da função secretora gástrica e o suporte à mucosa são partes do processo que frequentemente não recebem a atenção necessária.
A microbiota intestinal também é impactada.
O uso de dois ou mais antibióticos por 10 a 14 dias tem efeito significativo sobre o ecossistema microbiano intestinal.
A recuperação dessa microbiota precisa ser acompanhada e, quando indicado, assistida de forma criteriosa.
A reposição de nutrientes deficientes, como ferro, vitamina B12, zinco e vitamina D, completa o cuidado com o terreno.
Em alguns casos, especialmente quando a absorção ainda está comprometida, a reposição endovenosa pode ser considerada.
A visão clínica do Dr. Gustavo Solano
O H. pylori é um tema que gera muitas dúvidas e, infelizmente, muitos tratamentos inacabados.
Não é raro também, atender pacientes que receberam o diagnóstico, fizeram o tratamento e nunca tiveram confirmação da erradicação.
Ou que trataram a bactéria mas ficaram com sintomas persistentes que ninguém investigou depois.
A infecção por H. pylori é tratável.
O que não pode ser ignorado é o que ela deixa “de rastro” no estômago e no intestino.
Cuidar dos estragos, com o mesmo rigor com que se trata a bactéria, é parte do que faço com cada paciente que chega com essa história.
Conclusão
O H. pylori é uma das infecções bacterianas mais comuns no mundo e, uma das que mais impactam a saúde digestiva a longo prazo quando não tratada adequadamente.
Tratar com rigor e confirmar a erradicação são passos indispensáveis.
Mas, o cuidado com a recuperação do ambiente e terreno gástrico e intestinal, após o tratamento, é o que define se o paciente vai, de fato, se recuperar.
Se você foi diagnosticado com H. pylori, já fez tratamento e ainda tem sintomas, ou nunca confirmou a erradicação, o próximo passo é uma avaliação individualizada.
Atendo presencialmente em Ribeirão Preto e por telemedicina em todo o Brasil e exterior.
Perguntas frequentes sobre H. pylori
H. pylori tem cura?
Sim. E na maioria dos casos, quando o diagnóstico é confirmado, o tratamento é recomendado.
As diretrizes atuais, incluindo o ACG 2024 e o V Consenso Brasileiro de 2025, indicam a erradicação para a maioria dos pacientes, mesmo assintomáticos, pelo risco de progressão silenciosa das lesões gástricas ao longo do tempo.
Os esquemas de erradicação, quando seguidos corretamente e por completo, alcançam taxas de sucesso elevadas. A confirmação da erradicação após o tratamento é essencial.
Quais são os sintomas do H. pylori?
A maioria das infecções é assintomática. Quando os sintomas aparecem, os mais comuns são dor ou ardência na boca do estômago, sensação de plenitude pós-prandial, náuseas, arrotos frequentes, perda de apetite e estufamento. Em casos de úlcera, a dor melhora com alimentos. A infecção também pode se manifestar por deficiência de ferro ou vitamina B12 sem causa aparente.
Como confirmar que o H. pylori foi erradicado?
A confirmação deve ser feita entre 4 e 8 semanas após o término do tratamento. Os métodos de escolha são o teste do antigênio fecal e o teste respiratório da uréia. O exame sorológico (IgG no sangue) não deve ser usado para esse fim, pois os anticorpos persistem por meses após a erradicação.
Existe tratamento natural para o H. pylori?
Não existe abordagem natural com evidência suficiente para erradicar o H. pylori de forma equivalente ao tratamento farmacológico. Algumas substâncias, como certas cepas de probioticos, têm evidência como adjuvantes ao tratamento convencional, ajudando a reduzir efeitos colaterais e, em alguns estudos, contribuindo modestamente para as taxas de erradicação. Mas o tratamento médico com antibióticos é indispensável.
O que comer durante o tratamento do H. pylori?
A alimentação durante o tratamento tem papel de suporte, não de erradicação. Recomenda-se evitar álcool, cafeina em excesso, alimentos condimentados e ultraprocessados, que podem intensificar a inflamação da mucosa. Refeições menores e mais frequentes tendem a reduzir o desconforto. A orientação alimentar individualizada, considerando os sintomas e o contexto clínico de cada paciente, é sempre mais efetiva do que listas genéricas.
O H. pylori pode voltar após o tratamento?
A reinfecção é possível, especialmente em ambientes com condições de saneamento precarias ou com contato próximo com pessoas infectadas. No entanto, em adultos que vivem em condições de saneamento adequadas, a taxa de reinfecção após erradicação documentada é relativamente baixa. O monitoramento pós-tratamento e o cuidado com o terreno gástrico são as melhores formas de reduzir esse risco.
Agende sua consulta online de qualquer lugar do Brasil ou presencial em Ribeirão Preto com Dr. Gustavo Solano!

Dr. Gustavo Solano
CRM 106353 SP / RQE 55075 CRM SP
Médico especialista em Clínica Médica e Nutrologia, palestrante e diretor da Clínica Solano
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