Estufamento persistente, gases que não cedem, intestino que ora paralisa ora acelera, cansaço sem motivo aparente e uma sensação difusa de que algo não está funcionando bem. Para muitos pacientes, esses sintomas chegam acompanhados de um diagnóstico muito falado hoje em dia – a disbiose intestinal.
O problema é que, na maioria dos casos, esse diagnóstico é feito sem investigação adequada. Ou o médico menciona de passagem, ou o próprio paciente, chega ao consultório já convicto de que tem disbiose depois de ler sobre o assunto na internet.
A investigação adequada do desequilíbrio da microbiota intestinal exige bem mais do que um único exame.
Exige raciocínio clínico, integração de dados e o entendimento de que cada método investigativo captura uma dimensão diferente desse “ecossistema intestinal complexo”.
O que é disbiose intestinal e porque não é simples de diagnosticar
A disbiose intestinal é o desequilíbrio na composição, diversidade e funcionalidade dos microrganismos que habitam o trato digestivo.
Ou seja, dentro do nosso intestino, residem bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos, os quais desempenha funções que vão muito além da digestão.
Esses microorganismos, quando em equilíbrio, participam da modulação do nosso sistema de defesa, da produção de neurotransmissores, do metabolismo de vitaminas, fazem parte da barreira intestinal, e ajudam na cominicação mais eficiente entre o cérebro e o intestino.
Quando esse equilíbrio se rompe, os efeitos podem ser locais ( no sistema digestivo ) ou sistêmicos ( atingem outros órgãos ).
A complexidade diagnóstica começa aqui.
Não existe um padrão único e universal de microbiota saudável.
A composição varia de pessoa para pessoa, muda com a idade, com a dieta, com o uso de medicamentos e com o contexto clínico de cada indivíduo.
Por essa razão, nenhum exame isolado consegue diagnosticar disbiose com precisão absoluta.
O que os exames fazem é fornecer pistas, probabilidades.
Sintomas mais comuns que sugerem disbiose intestinal
A investigação da microbiota intestinal é indicada quando há sintomas persistentes que não encontraram explicação em uma avaliação convencional.
Os sintomas mais frequentes incluem estufamento abdominal, excesso de gases, diarréia crônica ou constipação intestinal de difícil resolução, má digestão crônica, desconforto abdominal recorrente, entre outras.
Sintomas fora do abdômen também fazem parte do quadro.
Fadiga persistente sem causa aparente, névoa mental, alterações de humor, baixa imunidade com infecções frequentes, deficiências vitamínicas recorrentes (especialmente B12, D, ferro e zinco) e manifestações cutâneas como acne ou urticária podem ter origem no desequilíbrio intestinal.
Um ponto que passa despercebido com frequência – exames laboratoriais convencionais dentro dos valores de referência não afastam a disbiose.
Muitas alterações funcionais da microbiota não deixam rastros nos exames de rotina.
Os principais exames para investigar a disbiose intestinal
Avaliação clínica detalhada: o ponto de partida
Antes de qualquer exame, a investigação começa pela história clínica.
O tempo e o padrão dos sintomas, o histórico alimentar, o uso de antibióticos ou outros medicamentos, o histórico de infecções intestinais, o modo de nascimento, o nível de estresse e as alterações recentes de peso fornecem dados que nenhum exame consegue capturar sozinho.
A anamnese bem conduzida orienta a escolha dos exames complementares e evita a armadilha da investigação exaustiva sem propósito clínico definido.
Teste Respiratório do Hidrogênio e Metano Expirado
O Teste Respiratório do Hidrogênio e Metano Expirado é o método não invasivo de referência para investigar o supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO) e o supercrescimento de metanogênicos (IMO).
O princípio é direto.
Apenas bactérias e outros microorganismos são capazes de produzir hidrogênio e metano dentro do nosso corpo. Quando há excesso de bactérias ou arquéias no intestino delgado, esses gases costumas ser produzidos precocemente e detectados no ar expirado após a ingestão de um substrato específico.
O exame identifica que há desequilíbrio microbiano com consequências clínicas.
Exige preparo específico e pode ser realizado na Clínica Solano em Ribeirão Preto (SP).
Coprológico funcional
O coprológico funcional permite uma análise abrangente, sendo considerado o hemograma das fezes.
Avalia de forma indireta o processo digestivo, gordura fecal, resíduos alimentares, fibras não digeridas, ph fecal e muito mais. É um exame que solicito para quase todos os meus pacientes.
É um exame de varredura, não mapeia microbiota, mas identifica alterações funcionais que acompanham o desequilíbrio intestinal.
Sua interpretação correta é fundamental.
Mapeamento do microbioma intestinal
O sequenciamento genético das bactérias presentes nas fezes, conhecido como mapeamento do microbioma ou metagenômica, é o método que oferece a visão mais ampla do ecossistema intestinal.
Ele identifica e quantifica centenas de espécies bacterianas por meio da análise do DNA microbiano.
Uma ressalva necessária.
Apesar do apelo tecnológico, esse exame ainda não tem padrões de referência universalmente estabelecidos para a prática clínica.
A variabilidade interindividual da microbiota é enorme, e o que é considerado saudável em termos de composição microbiana varia entre populações, dietas e contextos.
O exame tem valor dentro de um raciocínio clínico bem definido, mas não deve ser interpretado de forma isolada como diagnóstico definitivo de disbiose.
Solicito apenas em situações e casos muito específicos.
Teste Indican urinário
O Teste Indican avalia a concentração urinária de indican, um subproduto da fermentação bacteriana do triptofano no intestino.
Quando há fermentação excessiva por bactérias putrefativas no intestino delgado ou cólon, a produção de indican aumenta, refletindo-se na urina.
É um exame simples, realizado com amostra de urina, e funciona como marcador indireto de atividade bacteriana fermentativa intestinal aumentada.
Elevações relevantes do indican podem indicar desequilíbrio da microbiota, especialmente quando associadas a sintomas digestivos e a outros dados clínicos.
Marcadores de permeabilidade intestinal
A permeabilidade intestinal aumentada é uma consequência frequente do desequilíbrio da microbiota.
Quando a barreira intestinal perde integridade, fragmentos bacterianos e partículas alimentares atravessam para a corrente sanguínea, ativando o sistema imunológico de forma persistente.
A zonulina fecal é um dos marcadores mais usados para avaliar essa condição, uma proteína que regula as junções entre as células do epitélio intestinal, e seus níveis elevados nas fezes sugerem comprometimento dessa barreira.
Outros marcadores incluem IgA secretória, lipopolissacarídeos séricos e calprotectina fecal, cada um com suas indicações e limitações específicas.
Ácidos graxos de cadeia curta e ácidos orgânicos urinários
Os ácidos graxos de cadeia curta — como butirato, propionato e acetato — são produzidos pela fermentação bacteriana de fibras alimentares.
Eles têm papel essencial na nutrição das células do cólon, na modulação imunológica e na regulação do trânsito intestinal.
O perfil de ácidos graxos de cadeia curta nas fezes pode revelar desequilíbrios na atividade fermentativa da microbiota.
Os ácidos orgânicos na urina fornecem informações sobre metabólitos de origem bacteriana que chegam à circulação, complementando o raciocínio sobre como a microbiota está funcionando em nível sistêmico.
Avaliação nutricional laboratorial
A disbiose intestinal e o SIBO comprometem a absorção de nutrientes. Por isso, a investigação não está completa sem avaliação dos estoques de vitamina B12, ferritina, ferro sérico, vitamina D, zinco, magnésio e outros micronutrientes com papel central na função intestinal, imunológica e neurológica.
Hemograma e outros exames laboratoriais complementam a investigação.
Deficiências nutricionais em pacientes com sintomas persistentes são, muitas vezes, o primeiro sinal de que o intestino não está absorvendo adequadamente, mesmo antes de qualquer exame específico.
O que a investigação não deve fazer
Uma advertência necessária.
O diagnóstico de disbiose não deve ser feito por exclusão nem de forma empírica, sem critério clínico. Solicitar todos os exames disponíveis, sem um raciocínio diagnóstico orientado, gera resultados difíceis de interpretar e tratamentos desnecessários.
Condições como SIBO, IMO, SIFO (supercrescimento fúngico), intolerâncias alimentares (lactose, frutose, histamina), hipocloridria, dispepsia funcional, Síndrome do Intestino Irritável, entre outras, podem se apresentar com sintomas semelhantes à disbiose ou estão totalmente conectadas à disbiose.
Tratar o rótulo de disbiose sem identificar o mecanismo subjacente é tratar a aparência do problema, não sua origem.
Abordagem quando o desequilíbrio é confirmado
A abordagem do desequilíbrio da microbiota intestinal não começa pelos probióticos. Começa pelo entendimento do que originou e sustenta esse desequilíbrio.
Fatores como hipocloridria, dismotilidade intestinal, uso prolongado de medicamentos que alteram o pH gástrico ou a motilidade, histórico de infecções intestinais, padrão alimentar rico em ultraprocessados e pobre em fibras, estresse crônico são avaliados antes de qualquer intervenção.
O trabalho de restauração do terreno intestinal envolve múltiplas frentes.
A correção da acidez gástrica quando comprometida é um ponto frequentemente negligenciado. O pH adequado do estômago é uma das principais barreiras naturais contra o crescimento bacteriano excessivo no intestino delgado.
A integridade da barreira intestinal, o controle da inflamação da mucosa, o suporte enzimático quando indicado, a modulação da motilidade e a reposição criteriosa dos nutrientes deficientes são pilares que, trabalhados em conjunto, criam condições para que a microbiota se reorganize de forma sustentável.
A orientação alimentar entra como ferramenta de suporte, não de resolução isolada.
Ela deve ser individualizada, o que favorece a recuperação em um contexto clínico, pode piorar em outro.
A visão clínica do Dr. Gustavo Solano
A disbiose intestinal exite. Mas ela não é uma explicação para tudo.
Um dos erros mais comuns, que vejo na clínica, é o paciente que recebe esse diagnóstico de forma genérica e passa meses tentando tratamentos sem resultado.
Na maioria dos casos, o desequilíbrio da microbiota é consequência de algo que precisa ser identificado e corrigido.
Tratar a disbiose sem tratar a causa é como esvaziar um balde com a torneira aberta.
A investigação criteriosa, é o que diferencia um plano de cuidado, que funciona, de um que apenas gera esperança temporária.
Conclusão
Identificar a disbiose intestinal exige mais do que um exame isolado. Exige uma investigação clínica integrada, que combine anamnese detalhada, exames direcionados e raciocínio sobre o que originou o desequilíbrio.
Se você convive com sintomas digestivos persistentes e não encontrou respostas ainda, o próximo passo é uma avaliação individualizada. Atendo presencialmente em Ribeirão Preto e por telemedicina em todo o Brasil e exterior.
Perguntas frequentes sobre disbiose intestinal e exames
Qual é o melhor exame para diagnosticar disbiose intestinal?
Não existe um único exame que diagnostique disbiose com precisão absoluta. O diagnóstico é clínico e integrado, feito com base na história do paciente e em exames complementares direcionados. O Teste Respiratório do Hidrogênio e Metano Expirado é o método de referência para investigar o supercrescimento bacteriano e metanogênico no intestino delgado. O coprológico funcional, o Teste Indican, os marcadores de permeabilidade e o mapeamento do microbioma completam a investigação conforme a indicação de cada caso.
Disbiose intestinal causa cansaço e névoa mental?
Sim. O desequilíbrio da microbiota intestinal pode contribuir para fadiga persistente, dificuldade de concentração e névoa mental. Isso ocorre por mecanismos como produção de metabólitos bacterianos que afetam o sistema nervoso central, aumento da permeabilidade intestinal com ativação imunológica sistêmica, e deficiências de nutrientes como B12, ferro e zinco, essenciais para a função cerebral. Sintomas extradigestivos persistentes merecem investigação digestiva.
Exames normais de sangue afastam a disbiose intestinal?
Não. Exames laboratoriais convencionais não avaliam a composição nem a função da microbiota intestinal. Muitas alterações funcionais do ecossistema intestinal não deixam rastros nesses exames. Uma avaliação especializada, é necessária para investigar cada caso de forma adequada.
Qual médico pede exames para disbiose intestinal?
A investigação da disbiose intestinal pode ser conduzida por médicos com formação em gastroenterologia, nutrologia, clínica médica, entre outros com experiência em saúde digestiva.
Probióticos tratam a disbiose intestinal?
Probióticos podem ser parte da abordagem do desequilíbrio intestinal, mas não são uma solução universal nem um ponto de partida obrigatório. O uso criterioso depende da causa identificada, do tipo de desequilíbrio e do contexto clínico. Em algumas situações, como no SIBO, certas cepas probióticas podem agravar os sintomas. A automedicação sem diagnóstico correto raramente resolve o problema.
Agende sua consulta agora e invista na sua saúde digestiva!

Dr. Gustavo Solano
CRM 106353 SP / RQE 55075 CRM SP
Médico especialista em Clínica Médica e Nutrologia, palestrante e diretor da Clínica Solano
Dr. Luiz Gustavo Rosa Solano é médico com atuação em Clínica Médica e Nutrologia (CRM-SP 106353 | RQE 55074 · 55075). Formado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, com residência pela UNESP de Botucatu, possui ampla experiência em metabolismo, saúde digestiva e avaliação clínica integrada. Atuou no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (USP) e mantém formação contínua em avaliação nutricional, composição corporal e práticas baseadas em evidências. Atualmente, é diretor médico da Clínica Solano, onde realiza acompanhamento individualizado, com foco em ciência, precisão diagnóstica e cuidado integral do paciente.
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